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Caminhos Reais

Antigo-Calçamento

Por Bruno Cirillo, de Lençóis/BA

Início do século 18: o ouro circula entre as cidades de Jacobina e Rio de Contas, no sertão baiano. Vias abertas pela Coroa de Portugal possibilitam o transporte do produto até Salvador. Os colonizadores mantêm postos no caminho para cobrar o “quinto” (20% de taxa) das tropas comerciantes… Quase trezentos anos depois, a Estrada Real da Bahia, fragmentada em cerca de 500 quilômetros, faz lembrar os tempos áureos da mineração na Chapada Diamantina.

Os vestígios da antiga rota, calçada entre 1724 e 1725 para o escoamento do ouro e outras riquezas, compõem um traçado que atravessa o Parque Nacional. O maior trecho está em Rio de Contas – a primeira cidade fundada na região – com seis quilômetros de extensão, que vão dar na Serra das Almas. Para transformar este e outros caminhos em roteiro turístico do século 21, o governo pretende induzir investimentos que resgatem o patrimônio histórico.

“Estamos falando das únicas vias de acesso do sertão durante o século dezoito, por onde passavam aventureiros, escravos e tropeiros”, diz o historiador Ubaldo Marques Pontes Filho, coordenador do projeto da Estrada Real da Bahia, da Secretaria de Turismo do Estado (Setur/BA). Ele descreve as estradas como “trechos calçados, rústicos, de pedra irregular”, e nota que são circundadas por igrejas e outras construções da época, além das “riquíssimas belezas naturais da Chapada Diamantina”.

O ponta-pé inicial para o plano de revitalização da via, que prevê a abertura de trilhas, o reforço da estrutura turística ao redor e sua divulgação, foi dado no dia 15 de setembro, quando a Setur/BA e a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) assinaram um convênio para mapeá-la em quinze municípios entre Jacobina e Rio de Contas, como Piatã, Morro do Chapéu e Seabra. “Sabemos por onde a estrada passa, agora vamos precisar sua posição e descobrir resquícios ocultos no meio da caatinga”, declarou no mesmo dia o secretário de Turismo da Bahia, Pedro Galvão: “O georreferenciamento é a base para a revitalização”.

Enquanto a região é mapeada, em 70 dias a partir do convênio, empresas e entidades públicas devem se associar na criação do Instituto Caminhos Reais da Bahia, segundo Galvão. Essa espécie de ONG (sem fins-lucrativos) liderada pela iniciativa privada é que deverá administrar a nova rota turística, caso o projeto dê certo. O modelo é baseado na experiência mineira do Instituto Estrada Real (IER), criado em outubro de 1999 pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) para gerir as Estradas Reais que atravessam o Sudeste (RJ, SP e MG).

Casarão-da-Vila-Campestre

Casarão antigo próximo à Estrada Real na Vila Agrícola do Campestre, em Seabra (BA)

A experiência mineira

“As Estradas Reais do Sudeste são o maior projeto turístico em andamento no Brasil”, afirma Pontes Filho, da Setur/BA. O IER estima que a recuperação das vias por onde o ouro de Minas Gerais era levado, no século 18, até os portos de São Paulo e do Rio de Janeiro, passando por Paraty, gerou US$ 15 bilhões anuais nas 199 cidades tangidas pelo percurso, de 1,6 mil quilômetros.

O historiador Ubaldo Pontes Filho apresenta o projeto em Morro do Chapéu (BA)

O historiador Ubaldo Marques Pontes Filho, que coordena o projeto Estrada Real da Bahia,  durante apresentação em Morro do Chapéu (BA)

Com a transformação das antigas estradas, possibilitou-se a realização de projetos turísticos em parceria das prefeituras, da população e de companhias dos setores público e privado. A cada 1,5 quilômetro, há sinalização referente ao percurso; produz-se guias impressos e mapas, além de “passaportes” que podem ser carimbados a cada etapa da via; e faz-se a entrega de certificados a quem concluir o passeio, entre outras formas de se promover a rota.

“A Estrada Real agrega valor ao Estado e resgata um patrimônio histórico do País. Os empreendimentos hoteleiros, de alimentação e as agências de viagem têm crescido ano a ano”, afirma a gerente do IER, Kátia Bittar. Segundo ela, a taxa de ocupação nas cidades perpassadas pela Estrada Real sustenta-se a uma média anual de 60%. O potencial turístico explorado é de 30 milhões de pessoas por ano; e 250 mil foram empregadas, calcula-se, em função do projeto.

“É o conceito de economia criativa”, observa o historiador David Albuquerque, de São José dos Campos (SP): “Aproveita-se a atmosfera do lugar para desenvolvê-lo. Assim, muitas empresas têm pegado o barco do turismo”.

Debate

Na Bahia, o secretário Pedro Galvão defende o projeto desde 2012, quando presidia a Associação das Agências de Viagem da Bahia (ABAV/BA). Segundo ele, o Ministério do Turismo acena com uma verba de R$ 2,5 milhões para a iniciativa. A criação do Instituto Caminhos Reais da Bahia é vista por ele como uma forma de blindar o projeto contra mudanças na gestão pública, sobretudo às vésperas das Eleições de 2014. “Estamos criando o instituto para que o governo seja só uma parte do projeto”, ele diz.

A geóloga Lilian Andrade, de Lençóis (BA), pontua que o governo terá de passar pela chancela do Instituto do Patrimônio Histórico e Natural (Iphan) e realizar outros estudos de viabilidade antes de lançar o projeto, o que deve complicar a sua execução. Estudiosa das Estradas Reais da Bahia, ela é crítica assídua da iniciativa atual: “Estão promovendo algo de quê não têm ideia. Diferente do projeto de Minas Gerais, que foi estruturante e envolveu todas as secretarias do Estado”.

Trecho da Estrada Real em Jacobina (BA), a 300 km de Salvador

Trecho da Estrada Real em Jacobina (BA), a 300 km de Salvador

Visita

Hoje, a melhor forma de ver de perto, na Bahia, um resquício das estradas que marcaram a História do Brasil é indo a Rio de Contas, cidade com um rico conjunto de arquitetura colonial, restaurantes e pousadas à disposição. “Lá está o maior trecho contínuo de Estrada Real no Brasil”, afirma o historiador Pontes Filho. Depois da estadia neste que é o primeiro município da Chapada Diamantina, o visitante pode seguir pelos seis quilômetros da antiga via até a Serra das Almas, onde encontra alambiques de refinadas cachaças baianas.

Fotos: Tatiana Azeviche/Setur-BA
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