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Abelhas da Chapada Diamantina e o equilíbrio ambiental da região

Marcela Moura – 09 de março de 2023

Originalmente publicado em 06 de novembro de 2021

A diminuição do número de abelhas no mundo e a extinção de espécies são reais. Mas qual seria a consequência disso para a Chapada Diamantina?

Colmeia em construção vista por dentro | Foto: Açony Santos

Como principais agentes polinizadores, responsáveis por cerca de 70% de toda a polinização de espécies que servem de alimentos aos humanos, se as abelhas desaparecessem da Terra, 90% de toda a produção de alimentos agrícolas do mundo estaria comprometida. 

Para além da produção agrícola, a oferta de carnes e laticínios também seria extremamente afetada, bem como a produção de vestimentas, já que tanto o alimento dos animais quanto o algodão sofreriam com a falta da polinização realizada pelas abelhas. 

Entre os fatores apontados para a diminuição do número de abelhas estão o aumento exponencial do uso de pesticidas, mudanças climáticas e uma espécie de parasita que mata abelhas jovens e adultas. As formas de contornar o problema vêm sendo discutidas por especialistas de todo o planeta, antes que seja tarde demais.

Conversamos com o Dr Rogério Alves, especialista em abelhas nativas para entender o assunto:

Dr. Rogério Alves em explicação das colmeias | Foto: Açony Santos

Guia Chapada – Dr. Rogério, conte-nos um pouco sobre a sua trajetória. 

Rogério Alves – Me formei engenheiro agrônomo. A partir da universidade, comecei a trabalhar com abelhas nativas, unindo a parte prática à científica. Para criar a abelha você tem de plantar, é um cultivo baseado na sustentabilidade e conservação da natureza, ou seja, na permacultura. 

GC – Qual o objetivo da expedição que o Sr. está fazendo aqui na Chapada Diamantina?

RA – O intuito da QUAAPAB (que significa conhecimento em Tupi) é levar aprendizado ao público sobre as abelhas sem ferrão. 

GC – Por quê a Chapada Diamantina? A altura, a flora local? Existe algo aqui que propicie o cultivo das abelhas?

RA – Além da região ser um atrativo à parte, aqui há espécies que não existem em outros locais. Espécies que fazem o ninho no chão, como a uruçu-do-chão (melipona quinquefasciata) e estão desaparecendo pelo mau uso da terra pelo homem.  Há, ainda, o fato do mel da chapada ser orgânico, um dos mais puros que existem. Isso se dá porque as abelhas vivem em colmeias situadas numa área de mata nativa e ficam longe do contato com materiais sintéticos. Até as melgueiras são revestidas com a própria cera. 

Abelha Uruçu | Fonte: internet

GC – O que o Sr. pode dizer sobre os microclimas aqui da região e diferentes tipos de ecossistema, e sua relação com o cultivo das abelhas? 

RA – A flora diversificada e a altitude fazem com que o mel produzido aqui tenha sabores diferenciados

GC – Mucugê, Morro do Chapéu e Piatã são conhecidos por seus cafezais e vinhedos. No que isso influencia na produção do mel das abelhas? 

RA – Algumas culturas, como a do café, quando polinizadas, aumentam a produtividade, quantidade e qualidade do produto. O mel extraído do café carrega o aroma do mesmo e uma cor bem clara. Há também outras culturas propícias ao cultivo de abelha: Laranja, frutas vermelhas, amora e pêssego, dentre outras, que propiciam um mel, pólen e própolis especiais, com gostos e cheiros diferenciados. 

GC – Quais são as principais espécies “locais” de abelhas sem ferrão aqui da Chapada Diamantina?

RA – Uruçu – Melipona scutellaris, Mandaçaia – Melipona quadrifasciata anthidioides, Munduri- Melipona asilvai, Uruçu do chão – Melipona quinquefasciata, Mombuquinha – Geotrigona, Moça branca – Frieseomelitta sp, Tubi – Scaptotrigona postica e Mirim – Plebeia sp.

Abelha Moça Branca // Fonte: internet

GC -Qual a diferença do mel produzido por estas abelhas?

RA – Podemos dizer que 90% da composição do mel é ditado pela “flor”, como a cor, o gosto, o aroma e a composição; e apenas 10%, pela abelha. Portanto, é a flora local que traz o grande diferencial na produção. E na Chapada Diamantina, por sua larga biodiversidade e diferentes ecossistemas, isso traz um grande diferencial.

GC – Qual a importância das abelhas em relação à polinização da flora da região?

RA – A maioria das espécies vegetais nativas ou cultivadas depende das abelhas, 70% da polinização é feita pelas mesmas, então diria que a importância é imensurável. 

GC -Como funciona o processo da meliponicultura?

RA – A meliponicultura é a criação técnica das abelhas. Isso significa manejar as abelhas para a produção. É um processo utilizado principalmente pelos pequenos produtores. As abelhas oferecem produtos inacessíveis ao homem sem o seu auxílio, como o mel, própolis e pólen. Vale frisar que o custo de produção é extremamente baixo e, o produto, super valorizado. 

GC – GC – Qual o papel dessas espécies para o equilíbrio ambiental na Chapada Diamantina? 

RA – Citando o estudo “Abelhas sem ferrão: muito mais do que uma importância econômica”, de Wagner Pereira Silva e Joicelene Regina Lima da Paz: “A importância dos meliponíneos interfere não apenas em aspectos sociais e econômicos, mas principalmente em processos ecológicos e ecossistêmicos. Diante desta problemática, fazem-se necessárias medidas urgentes de sensibilização, sendo um ponto chave a intervenção junto à sociedade, através da Educação Ambiental nas escolas e organizações. O serviço ecológico realizado pelas abelhas sem ferrão, inclusive incluindo os demais grupos de abelhas, é essencial para a manutenção da diversidade vegetal e da flora nativa, e indiretamente, da fauna que dela se beneficia. Dessa forma, uma maior oferta de sítios de nidificação para as abelhas sem ferrão, contribui diretamente para a conservação da fauna e da flora, que, em conjunto com outros seres vivos, mantêm o nosso planeta em equilíbrio”.

Para saber mais dicas sobre flora, fauna e onde comprar produtos naturais da região, adquira o seu Guia de Viagem Chapada Diamantina.



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