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domingo, 23 dezembro, 2018 às 16:58 | Atualizado em: 26 dezembro, 2018 às 10:35

Entrevista: Orlando Senna grava novo filme na Chapada Diamantina

Confira cenas dos bastidores de Longe do Paraíso


Thais de Albuquerque


Orlando Senna é um dos orgulhos da Chapada Diamantina. Nascido em Lençóis em 1940, ele é cineasta, jornalista, escritor, e, acima de tudo, uma mente luminosa. Seus filmes receberam prêmios nos festivais de Cannes, Figueira da Foz, Taormina, Pesaro, Havana, Porto Rico, Brasília, Gramado e Rio de Janeiro. Seus trabalhos para a televisão foram premiados na Inglaterra com o British Environment and Media Awards e o Panda do Festival Wildscreen, conhecido como Oscar Verde. Dirigiu cerca de 30 peças e publicou os livros Um gosto da eternidade e Os lençóis e os sonhos.

Orlando Senna atrás das câmeras. Foto: Facebook de Renata Semayangue

Após quase 16 anos longe das câmeras, dedicado a outras atividades dentro do universo do cinema, o cineasta volta aos sets de filmagem a todo vapor. Só nos últimos 2 anos foram 3 produções: Idade da Água, Sol da Bahia e Longe do Paraíso. A última, filmada na Chapada Diamantina, foi escrita e dirigida por Orlando Senna, com produção da Araçá Azul, gerida pela também lençoense, Solange Lima.  O filme é inspirado no mito de Caim e Abel e promete uma trama intensa no cenário natural e pitoresco do interior baiano.

Entrevistamos Orlando Senna no Hotel Canto das Águas após o último dia de filmagem. Confira.

Entrevista com Orlando Senna no Hotel Canto das Águas. Foto: Walli Fontanelli

Orlando, conta pra gente um pouco sobre o filme.
O roteiro é inspirado no mito de Caim e Abel, ou seja, trata-se de dois irmãos que entram em conflito. Como na bíblia, a narrativa leva os irmãos a um ponto em que não há solução, ou a uma situação limite. Quando a razão não tem mais o que fazer diante de uma situação, ela chama as emoções. Então, neste filme, as emoções estão à frente da razão. As melhores e as piores emoções.
Retrata também a incerteza absoluta e as ameaças que pairam, atualmente, sobre as cabeças de todo mundo. As maldades humanas estão aparecendo com um vigor mais forte do que geralmente se manifestam. O filme retrata uma tragédia entre irmãos no sentido familiar, mas também num sentido mais geral: amigos, aliados e aqueles que você pensa que estão com você mas não estão. É sobre a insegurança absoluta do ser humano neste momento em que vivemos e o que aflora a partir desta situação. Aflora exatamente conflitos.

Orlando Senna. Foto: Walli Fontanelli

A história é contemporânea?
Sim, o filme se passa nos dias de hoje. Começa no interior, vai pra capital e depois volta à calmaria do campo – que não é tão calma assim (risos), em algum lugar indefinido que chamamos de Paraíso do Norte. Considero um filme rural, apesar da presença forte da metrópole, com seus grupos marginais, organizações criminosas, etc.

O que te fez querer gravar na Chapada Diamantina? Saudades da terra natal?
Sim, sim. Escolhemos as Lavras Diamantinas devido ao cenário geográfico e também ao cenário humano. Viemos atrás da natureza e também das pessoas daqui.
Gravamos em Mucugê, Lençóis, Palmeiras e Iraquara, além da capital Salvador.
Outra razão que nos fez escolher a Chapada como cenário é a existência das montanhas, das terras altas. O roteiro é inspirado em um fato narrado da bíblia, onde há muitas citações de fatos que ocorrem nas montanhas. Quando a Arca de Noé toca o solo, depois que as águas baixam, ele está sobre as montanhas. Moisés vai pensar e buscar as leis em uma montanha. Há muita relação com os cenários que a bíblia aponta.

Orlando Senna e o diretor de fotografia Pedro Semanovschi. Foto: Facebook de Renata Semayangue

Nós soubemos que você optou pela participação de atores locais no filme no elenco. Já chegou com isso em mente?
Sim, com certeza! Já que íamos usar a geografia natural da chapada, decidimos usar também a geografia humana, digamos assim. Isso nos norteou. Temos atores baianos de outras localidades, mas a maior parte do elenco é conformado por pessoas daqui: atores e não-atores, que hoje em dia chamamos de “atores naturais”. Por exemplo, uma mulher daqui surpreendeu muito, a Gal. Ela interpreta a esposa grávida de um trabalhador rural, ambos trabalham em uma empresa agrária e estão presos pois ele deve ao patrão. Eles tentam fugir mas não conseguem. E a Gal se saiu muito bem. A equipe se entusiasmou muito por ela!

Gal Pereira, atriz natural da Chapada Diamantina. Foto: Facebook de Renata Semayangue

Como foi a escolha dos protagonistas?
Kim (que seria a referência a Caim) é interpretado por Ícaro Bittencourt, um jovem de 23 anos da escola de teatro da UFBA que, com essa idade, já tinha estudado grandes dramaturgos. É o primeiro papel dele no cinema, já como protagonista, e é uma verdadeira revelação! Aliás, seria uma revelação de qualquer jeito e eu o escolhi por isso.
Bel (em referência a Abel) é Emanuelle Araújo, nossa atriz-cantora.
Também gostaria de citar Sônia Dias, atriz baiana de destaque nos anos 70, no que se chamava “cinema marginal” da época. Num momento, ela deixou o cinema e transformou-se em produtora de eventos. Fui buscá-la para fazer um papel muito importante, a Madame.

Personagem Bel, vivida por Emanuelle Araújo | Foto: Instagram Emanuelle Araújo.

Personagem Kim, interpretado por Ícaro Bittencourt. Foto: Ícaro Bittencourt

Temos visto várias produções, tanto para cinema como para televisão e internet, acontecendo aqui na Bahia e na Chapada Diamantina, o que configura esta região como um excelente cenário para filmes. O que você acha que desperta o interesse desses profissionais?
Com certeza, a variedade. Tem a paisagem do campo, as roças, fazendas, grandes vales, rios, cachoeiras, além de uma cultura incrível, a cultura do diamante. Tem também essa geografia humana que falei antes. Tudo isso é muito interessante para o cinema. Na verdade, nossa região faz cinema desde os anos 30, já temos um portfólio importante.

 

Chapada Diamantina como cenário | Foto: Instagram Emanuelle Araújo.

Agora que acabaram as gravações, qual o sentimento que fica?
É o sentimento de realização muito forte, mas também de saudade. Para todos. Quando uma equipe funciona bem, com pessoas tão felizes em trabalhar, o que fica é um vazio muito grande dentro de todos, durante alguns dias. Um sentimento que fizemos algo que valeu a pena.

E qual a previsão de lançamento de Longe do Paraíso?
Provavelmente no segundo semestre de 2019.

Orlando Senna em cenário chapadense. Foto: Facebook de Renata Semayangue

Mais sobre Orlando Senna
Ex-diretor da escola de cinema de Cuba, Orlando Senna consagrou-se na sétima arte dirigindo os longa-metragem Brascuba, 1987; Diamante Bruto, 1977; Iracema – Uma Transa Amazônica, 1974; 69 – A Construção da Morte, 1969. Atuou como ator em Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro, 2014; Tudo por Amor ao Cinema, 2014; Caveira My Friend, 1970; O Grito da Terra. 1964. Entre os seus roteiros para o cinema estão: Brascuba, 1987; Ópera do Malandro, 1986; Abrigo Nuclear, 1981; Coronel Delmiro Gouveia, 1978; Diamante Bruto, 1977; O Rei da Noite, 1975; Iracema – Uma Transa Amazônica, 1974; 69 – A Construção da Morte, 1969.

Orlando Senna também assina as seguintes obras literárias: Sábanas y Sueños – Editorial Casa de las Américas, 2012; Os lençóis e os sonhos – Editora Record, 2009; O homem da montanha (autobiografia, editoração Hermes Leal) – Coleção Aplauso, 2008; Um gosto de eternidade – A Girafa Editora, 2006; Así de simple (coautoria Robert Redford, George Lucas, Stvan Szabo e outros) – Editorial Voluntad, Colombia, 1995; Ajaká (coautoria Juana Elbein, Mestre Didi) – Editora Secneb, 1991; Máquinas eróticas – Editora Rocco, 1985; Ares nunca dantes navegados – Editora Brasiliense, 1984; Coronel Delmiro Gouveia (coautoria Geraldo Sarno) – Editora Codecri, 1979; Xana – Editora Codecri 1979.

 

Sobre a produtora Araçá Azul
Gerida pela lençoense Solange Lima, a Araçá Azul Cinema e Vídeo é uma produtora de cinema com 15 anos no mercado. Tem em seu currículo mais de 15 curtas; hoje com o seu primeiro longa finalizado o Filme “Estranhos” de Paulo Alcântara.
Tem também em seu portfólio a coprodução dos longas: “Jardim das Folhas Sagradas” de Pola Ribeiro; “Filhos de João Retrato de um Brasil Musical” de Henrique Dantas; “Brilhante” de Conceição Senna, “Capitães da Areia” de Cecília Amado (baseado no romance de Jorge Amado). Possui outros dois filmes internacionais em fase de pré-produção: “Perto do Céu” de Carla Guimarães e “A Pele Morta” de Geraldo Moraes. Atua como produtora das obras “Longe do Paraíso” de Orlando Senna (Longa Metragem) e “Um Sonho Um Real” Coordenação de Geraldo Moraes (série para TV em 13 capítulos). E, em parceria com a Produtora Santo Guerreiro, trabalhou outras três séries para TV: “Filhos de Olorum”, “2 de Julho” e “Camaradas”.

Apoio local
Muitas empresas e profissionais locais colaboraram com a produção do filme com diversas formas de apoio, como o Hotel de Lençóis, Hotel Canto das Águas, Pousada Vila Serrano, Pousada Raio de Sol, DoisIrmãos, IPHAN, Associação Grãos de Luz e Griô e Secretaria Municipal de Turismo e Cultura de LençóisSecretaria Municipal de Turismo, Cultura e Meio Ambiente de Mucugê.

Foto de destaque: Walli Fontanelli

Agradecemos a: Renata Semayangue, Walli Fontanelli e Hotel Canto das Águas.



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